Por mais de 40 anos, Francisco e Damiana Bezerra sustentaram a casa e a educação de seis filhos com os rendimentos da bodega na avenida Borges de Melo. O casal teve a sorte de se estabelecer em uma via movimentada, ao lado de borracharias, salões de beleza e outros comércios.
Agora, consideram estar num “beco sem saída”. É que, há pelo menos um ano, a bodega dá de frente com tapumes. A via está interditada enquanto estão paradas as obras do mergulho sob a linha do Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT).
Antes, os fornecedores chegavam até a porta da mercearia para deixar os produtos. Mas a rotina atual é de mais esforço pela mercadoria, poucos clientes e sensação de insegurança com os constantes assaltos no trecho abandonado. “Matou nosso comércio”, resume Francisco, 72. “Tem dias que a gente se olha sem saber o que vai comer”, lamenta Damiana, 77. A dificuldade não castigava tanto no início. Eles relatam ter confiado que a obra não atrasaria. Mas desde maio, nem sinal de gente trabalhando. “Agora vai entrar um novo governador, e eu começo uma nova oração”, diz Damiana.
Parque Iracema
Esperas também no bairro Parque Iracema. Na rua Gregório França, a obra de drenagem ficou parada por, pelo menos, três meses. Deixou buracos abertos, um cano exposto a danos com a passagem de carros, dificuldades aos pedestres nos dias de chuva com a criação de poças. Morador da rua há 36 anos, o aposentado Carlos Alberto de Oliveira não sabe quando vai se livrar de tanto incômodo. O desejo é de voltar a ter a rua livre. “Eles acharam esse lugar com calçamento e deixaram desse jeito: areia, buracos... Resolvem vir continuar quando bem entendem”, reclama.Parque Iracema
No Benfica, chegar à avenida José Bastos tornou-se mais difícil com os fechamentos de ruas para passagem da Linha Sul do Metrofor. Uma alternativa para os veículos seria o viaduto vindo da rua Padre Cícero, com alças de acesso à Carapinima. Quatro anos após o início das intervenções, apenas a parte de cima do viaduto está erguida. No entorno, 112 imóveis foram desapropriados e outros 36 seguem em litígio judicial entre proprietários e Governo do Estado.
Um dos que resistem é o despachante aduaneiro Marco Fábio Franco, 50. Ele não aceitou a proposta do Estado, que teria oferecido um valor com R$ 200 mil abaixo da avaliação solicitada por ele a uma imobiliária. A oferta aconteceu há cerca de três anos. “Fomos citados para ir ao Metrofor, onde nos mostraram o projeto. Chegamos para saber o que já estava certo para acontecer. A pergunta foi praticamente: ‘aceita ou não?’ Não aceito porque é um preço injusto, e eu quero poder procurar outro imóvel aqui no bairro. É onde está a escola do meu filho”, explica. A disputa aguarda decisão da Justiça. Enquanto isso, a casa vai se enchendo de rachaduras, e transitar por entre os buracos do lado de fora é um dos desafios cotidianos.
Fonte: O POVO
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